9ª: D.A.D.A. 

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 D.A.D.A.: experimentos sobre repetição, fluxo, corte, embaralhamento e sentido na expressão e na   comunicação do portador de Alzheimer 

registro da ação (vídeo): 20 minutos

O texto abaixo é dividido em duas partes: a primeira com informações sobre a Doença de Alzheimer e sobre alguns conceitos difundidos no movimento dadaísta, também explanando os porquês dessa escolha para dialogar com essa ação performática. A segunda parte explica como se deu o experimento em seu programa performativo. 

 

O termo programa performativo é discutido e definido no artigo Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea, da artista Eleonora Fabião e consiste em delimitar ações como campos de experiência, sem ensaios do performer, apenas a sua preparação em todo o processo para a experimentação de ações, combinações, possibilidades, a partir de um ponto disparador dessa performatividade. 

A primeira parte do texto elucida questões pertinentes em relação ao nosso conhecimento geral sobre essa doença - sendo o foco maior dessa pesquisa o compartilhamento de informações que tragam visibilidade à questões do envelhecer. A segunda parte tem como foco o relato da ação.

O texto é acompanhado de algumas fotografias (vide final) e também de um vídeo de vinte minutos que registrou as duas experiências para essa performance, tendo em sua proposta de edição audiovisual os pontos comentados aqui no texto abaixo.

 

Agradeço especialmente às senhoras que participaram dessa ação e aos seus familiares que compreenderam o sentido e a realização dessa ideia: 

 

"Sem ter que ‘esconder’ seus doentes, as famílias se liberam mais nos depoimentos trazendo suas dificuldades e levando possíveis soluções simples para problemas complexos vividos no dia-a-dia do portador de Alzheimer.” (ARAÚJO, p. 119)

 1ª PARTE: 
 SOBRE A DOENÇA DE ALZHEIMER, O DADAÍSMO E SUAS RELAÇÕES COM A PERFORMANCE 

 

Entre fevereiro e março de 2015, foram realizadas as duas etapas da performanciã D.A.D.A., com as senhoras Maria da Conceição (89 anos) e Lia Dalva (82 anos), diagnosticadas com a Doença de Alzheimer e acompanhadas nesta ação por cuidadores de suas famílias (Marta, filha de Maria da Conceição e Antonio, neto de Lia Dalva). Maria da Conceição trabalhou em sua vida na roça e também em casa, cuidando dos filhos. Já Lia Dalva foi professora, pedagoga e escritora de livros didáticos de alfabetização e livros infantis, como Dona Marta Lagarta (Premiado pela Unesco no Concurso Livros para um Mundo Melhor) e A Menina e o Velho

As iniciais que intitulam essa ação se referem àquelas utilizadas por médicos, cuidadores e pessoas que pesquisam e/ou tem contato com a Doença de Alzheimer: D.A.. Pelo fato de ter sido realizada em duas etapas – uma com cada senhora, seguindo as mesmas ações de um programa performativo elaborado para a ação –, a performance ganha o nome de D.A.D.A. – que, para além das iniciais que identificam a doença, traz uma referência direta ao dadaísmo, importante corrente cultural do início do século XX. Nesta experiência performática, os pontos que ligam a D.A. ao dadaísmo foram elencados a partir de características reconhecíveis tanto nos processos vivenciados por pacientes diagnosticados quanto no movimento artístico, de forma geral. 

Há, no território brasileiro, cerca de 21 milhões de cidadãos com mais de 60 anos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/PNAD, de 2009 e mais de 1,2 milhões de brasileiros que sofrem com a D.A., de acordo com dados da Associação Brasileira de Alzheimer/ABRAZ. A previsão mundial é de que em 2030, 65,7 milhões de pessoas desenvolvam o diagnóstico da D.A. O maior número de pacientes com o diagnóstico são mulheres e não há distinção de classe econômica. 

A D.A. não afeta somente o idoso, mas a convivência e interação familiar, onde tudo se transforma. Paulo Bernardo de Araújo escreveu um livro sobre o Alzheimer e as relações com a família e a sociedade. Sobre a doença e sua visibilidade, o autor afirma: “O que não é coerente, nos parece, é nos fecharmos em nós mesmos, vivermos a angústia maior do egoísmo da dor, nos privando do contato com outras pessoas e nada fazermos para repassar a terceiros tudo o que nosso enfermo passa e que também estamos passando.” Araújo completa: “Não é hora de retermos. É hora de dividirmos talento.” (ARAÚJO, p. 81). É necessário nos abrirmos a essas questões, para que esta doença e seus portadores ganhem cada vez mais respeito de todos os setores da sociedade. Planos de saúde, por exemplo, ainda não cobrem os custos elevados de alguns casos de D.A.

A D.A. é reconhecida como uma das formas mais severas de demência, irreversível em seu processo e muito mais frequente em pacientes de idade avançada, sendo causada por uma danificação que “(...) causa a morte celular e provoca alterações na estrutura do cérebro.” (ARAÚJO, p. 65). Esses danos são identificáveis em pacientes diagnosticados com a doença em três estágios definidos de acordo com as características do processo, não apresentando uma duração temporal comum a todos pacientes – sendo assim, um processo distinto para cada um que vive essa experiência. Em algum momento da doença, ocorre a falta de um neurotransmissor específico que é ligado à memória e às capacidades de raciocínio, identificação e julgamento, ocasionando a interrupção de mensagens neuronais de grande importância para a relação do paciente com o seu universo (ARAÚJO, p. 70).

A D.A. pode ser classificada em dois subtipos, de acordo com a idade do início dos sintomas: senil (após 65 anos, sendo este o tipo mais comum) e pré-senil (anterior aos 65 anos) - tendo ainda casos mais raros onde a doença se instala no paciente de forma bastante precoce e é mais acelerada (ALMEIDA, p. 15). Geralmente, a D.A. se caracteriza em seus portadores pela perda de memória de forma progressiva, distúrbios comportamentais e emocionais e comprometimento de suas funções cognitivas. Em seus três estágios há um agravamento dos sintomas, como distúrbios da memória – que inicialmente são ligados às memórias recentes e ao longo do tempo danificam memórias mais antigas –, interferência nas funções visuo-espaciais, na linguagem, no aprendizado, na concentração, na comunicação (que no último estágio se reduz ao mutismo ou a sons desarticulados, como na fala de um bebê), na capacidade crítica e na cognição do paciente, entre outros (ALMEIDA, p. 72-73).

A partir dessa breve introdução sobre o espectro clínico da D.A., faço uma relação com o movimento dadaísta, surgido na Europa no ano de 1916 e formado por escritores, poetas e artistas plásticos – sendo os líderes dessa corrente de vanguarda artística moderna, Tristan Tzara, Hugo Ball e Hans Arp. O dadaísmo se colocou contra os padrões da arte vigente na época (questionando o sentido e a beleza na arte e o mercado artístico ditando estilos), apresentando um caráter antirracional e refletindo a falta de sentido que o mundo sofria naquele momento com o estouro de uma Guerra Mundial. Não havia senso algum nas desumanidades provocadas por uma guerra de grandes proporções como aquela. Uma atmosfera pesada se instalava na Europa e no mundo, enquanto muitos artistas não refletiam em suas obras esse sentimento comum. O dadaísmo surge, então, como um fôlego desafiante a provocar um paradigma estético, criando arte "sem sentido" – o que naquela época não era nem reconhecido como arte, pelo senso geral. 

Afim de escolher o nome do movimento, dentro de seu caráter non-sense, seus criadores deram vazão à aleatoriedade, espetando um estilete sobre uma página de dicionário aberta ao acaso. A palavra que designaria o movimento artístico seria então: “dada”. Pela escolha aleatória, em relação ao movimento e a seu conceito, “Dada”nada significa, não há sentido nessa escolha. Mas “Dada” é uma palavra que, dependendo das linguagens em diferentes países, pode vir a apresentar diversos significados distintos, como Tristan Tzara explana em seu manifesto: cubo, mãe, ama de leite, a cauda de uma vaca sagrada, ou, em francês, particularmente, cavalo de madeira. Também pode ser relacionada ao linguajar dos bebês. Por jornalistas da época também foi criticada como uma arte feita para bebês. 

É neste momento em que ligo os pontos e liquidifico a D.A. e o Dadá, também refletindo nesta performanciã os reflexos do enfrentamento da doença e de seus sintomas pelo idoso e suas famílias, não me esquecendo de também tratar a forma de relação da sociedade com o paciente portador dessa doença. A fim de dialogar e trazer visibilidade às suas questões, essas ideias liquidificadas foram transformadas em um programa performativo, desempenhado por duas senhoras diagnosticadas com a doença (Maria da Conceição, com diagnóstico de 4 anos, e Lia Dalva, com diagnóstico de 6 anos).

 

“A doença de Alzheimer é trágica, não há dúvida. Mas a conclusão a que chegamos é que a maior tragédia ainda é o nosso desconhecimento sobre a doença, o doente e, acima de tudo, sobre nosso mundo interno”. (ARAÚJO, p. 125)

 

 2ª PARTE: 
 PROGRAMA E AÇÃO 

 

O programa da performanciã se estabeleceu de forma simples, afim de não cansar as senhoras envolvidas no projeto. Cada ação, com três etapas, durou cerca de uma hora e meia. Enquanto toda a ação acontecia, o familiar mediador da ação teria que, além de explicar cada passo do programa para a “senhora performer” e auxiliar nas ações – pela dificuldade de retenção de informações e instruções –, acionar constantemente uma caixinha de música em formato de carrossel com cavalos de madeira (dada).


Essa ação recorrente fez parte da ação como uma metáfora ao processo de repetição de narrativas, comum aos pacientes de D.A., no “dar corda” ao fluxo de memórias e de pensamentos, no constante girar do carrossel cerebral que, embalado por uma música sutil ligada aos toques da infância, de repente, para e necessita ser novamente acionado. Fluxo, corte e repetição.

 

  • Em um primeiro momento, em ambos os casos, nos encontramos, eu, a senhora performer e seu familiar mediador nessa performance. Era um momento de apresentação, tanto minha quanto da proposta de realização. O primeiro passo foi pedir para que a senhora envolvida na ação se lembrasse de uma história antiga de seu passado. As histórias, depois de lembradas, foram constantemente repetidas durante todo o tempo de nosso encontro. As memórias mais antigas, num processo de D.A., são as últimas a serem comprometidas, mais fáceis de serem compartilhadas. Já as memórias recentes são mais fugidias. No último estágio da doença pode ocorrer do portador de D.A. achar que vive em algum momento de seu passado e de sua infância.

 

Maria da Conceição lembra de bailes que gostava de frequentar para dançar, tendo que, antes, rezar a ladainha. Nos bailes tocavam valsa, forró e mazurca, até às 6h da manhã, numa casa de fazenda. Também se lembra de quando teve gêmeos. Já Lia Dalva se lembra mais do espaço geográfico das pequenas cidades onde morou: Paraoquena e Miracema, narrando também sua relação com uma escola específica e com o pai, dono de um cavalo e de uma farmácia.  

 

  • Na segunda etapa, as senhoras recebiam de seus familiares uma tela de pintura e diversas tintas, com cores diferentes. Nesse momento, eram estimuladas a escolher cores que pudessem traduzir ou transmitir um pouco daquela memória contada e apenas passar o pincel pelo suporte, deixando fluir essa memória nas impressões e gestos feitos pelo pincel, iniciando uma “arte dadaísta” – que por fim traria em seu resultado não só um caráter non-sense como também uma parte de sua vida, numa espécie de action painting delicada estimulada por uma memória em processo de degradação.

 

Foram orientadas a fechar os olhos, caso quisessem, para se lembrar das histórias narradas a nós. Nem precisou frisar que a pintura não deveria esbarrar numa representação figurativa e que deveria ser apenas a impressão e a tradução daquela reminiscência. Enquanto pintavam, continuavam a repetir suas histórias, muitas vezes como se não tivessem nem contado há poucos minutos atrás. Maria da Conceição nunca havia pintado um quadro, enquanto Lia Dalva tem nas paredes de sua casa diversos quadros pintados em sua vida, de paisagens a naturezas mortas.

 

  • Na última etapa, com o quadro já pintado, seguimos para uma atividade baseada em uma instrução do líder dadaísta Tristan Tzara em seu famoso poema  “Para fazer um poema dadaísta” :


 

"Pegue um jornal.

Pegue uma tesoura.

Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema.

Recorte o artigo.

Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.

Agite suavemente.

Seguidamente, tire os recortes um por um.

Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco.

O poema será parecido consigo.

E pronto: será um escritor infinitamente original e duma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelo vulgo."

 

Antes de nossos encontros, no momento onde combinamos a realização da ação, foi incumbida ao familiar a tarefa de escolher um texto de preferência da senhora. Para Maria da Conceição, que é analfabeta, Marta, sua filha, escolheu a oração de Nossa Senhora Aparecida – da qual Maria sempre foi devota. Já para Lia Dalva, seu neto Antônio escolheu os dois livros infantis escritos por sua avó – dos quais ela ainda se orgulha, por mais que pareça não se lembrar completamente das simples histórias escritas.  

 

Como sugerido por Tzara, cortamos esses textos (oração e livros digitados previamente) e colocamos frases inteiras e palavras soltas num saco, para que as senhoras retirassem aleatoriamente e colassem como quisessem, com ajuda do mediador, no quadro recém-pintado.


Ali, a partir do embaralhamento daqueles textos repetidos e bem conhecidos há anos por aquelas senhoras, podemos espelhar também um processo sintomático comum ao vivenciado por elas: o embaralhamento das palavras, da linguagem, das memórias, dos sentidos. Também, no corte dos trechos desses textos, repetimos naquele material o processo de corte do fluxo de suas ideias e comunicação.

 

A partir desse jogo poético-dadaísta, foram montados dois novos “poemas dadaístas”, criando novo sentido ao “não-sentido” da proposta da ação performática. Momento sentido pela ação e pela memória: seria arte?

 

Por fim, a senhora escolhia um “objeto encontrado”/"objeto pronto" para acrescentar ao quadro. O “objeto encontrado” ou “ready-made” foi um termo concebido para designar uma nova maneira de apresentar arte, ao escolher um objeto cotidiano e já pronto para ser transformado em arte e exposto – baseando-se num conceito que o artista criasse para explicar sua intenção com a obra. Assim, por exemplo, fez o dadaísta Marcel Duchamp quando expôs Roda de Bicicleta sobre um Banquinho, em 1913, e um mictório/urinol em 1917, intitulando-o como A Fonte.
 

Maria da Conceição escolheu um terço para integrar sua obra. Já Lia Dalva colou pequenas miçangas e por fim, desistiu de colar uma borboleta de pano que estava entre os materiais, pois ela preferiu que a borboleta fosse colada em algum outro espaço de seu apartamento.

Com suas “obras dadaístas” finalizadas, seus mediadores puderam dar fim ao girar do carrossel.

Lia Dalva nos contou também que foi à China, mostrando, por fim, um livro repleto de informações e imagens da Grande Muralha da China. Porém, sua família afirma que ela nunca visitou a China ou essa construção milenar. No vídeo, após os créditos, é possível ver algumas imagens referentes a esse relato. Nos livros em que Lia Dalva escreveu para crianças, suas histórias envolvem sempre personagens com grande imaginação, que acabam saindo pelo mundo e alterando suas percepções com as experiências adquirida.


Nossa mente nos leva a diversos lugares, imagina, cria histórias. Quem poderá dizer que não visitamos realmente os caminhos que a imaginação nos leva em devaneios? A mente é a grande condutora das experiências. Assim como um cérebro pode sofrer um processo de degeneração, com todo o seu potencial e complexidade estrutural, uma construção milenar também um dia há de ruir. A Grande Muralha da China está desaparecendo por conta de construções feitas muito próximas ao ponto turístico e também porque agricultores e turistas têm roubado muitos tijolos do muro, para novas construções ou para levar "lembranças para casa".

Esse cérebro-muralha que nos pertence, que um dia terá todos os seus tijolos levados como lembranças... o que nos diferencia uns dos outros, são os diferentes processos de tempo e os caminhos que levam as nossas memórias pra se despedir do mundo.



 

 Referências: 

 

ALMEIDA, Osvaldo P., Ricardo Nitrini, et al., Demência. São Paulo, Fundação BYK, 1995

 

ARAÚJO, Paulo Bernardo de. Alzheimer – o idoso, a família e as relações humanas. 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora WSK, 2006.

www.abraz.org.br

http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/muralha_da_china_corre_o_risco_de_desaparecer.html

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